O Paradoxo do Peso das Mulas
- Thomas Gibello Gatti Magalhães

- 23 de fev.
- 7 min de leitura
Atualizado: 23 de fev.

Em um local distante, imaginamos um cenário bucólico do campo, onde fazendeiros costumavam se reunir nas suas feiras semanais e, como forma de distração, começaram a apostar o peso de suas mulas que levavam suas mercadorias ao mercado, assim como no preço estipulado às mulas de maior desempenho. O cenário foi expandindo e a brincadeira campestre começou a gerar algum dinheiro.
O Seu Zé, tinha habilidade com os números desde pequeno, percebeu que a média das apostas se aproximava ao peso real das mulas no auferimento final (bom senso das pessoas ao analisar a barriga dos quadrupedes), investindo em uma "média ponderada" das apostas realizadas, aumentando sua chance de acerto. Nem todas as pessoas se atentaram ao fato da média ponderada e ao passar dos tempos “Seu Zé” teve o ar místico de ser o oráculo do mercado.
Mas, nesse mesmo período, com a bonança que as pessoas tinham no divertimento remunerado, não havia uma organização de como as mulas deveriam ser pesadas ou qual o preço estas poderiam ser negociadas, nem havia uma manutenção das balanças antigas que eram utilizadas uma vez que essa manutenção era custosa. Pasmem, mesmo com o divertimento gerando lucro, usavam balanças sem análise prévia para pesar as mulas. Um absurdo!
Assim, uma entidade passou a organizar a métrica do auferimento do peso, usando balanças com precisão atômica, cobrando um percentual por cada "boleta" de peso lançada no mercado e, na forma do “livre mercado monopolista”, impedindo que outras balanças fossem colocadas no mercado, seja por meio da compra das balanças disponíveis, ou por meio de diminuição das taxas de cobrança e impedimento de novos organizadores do mercado de carga semi-equina. Criou-se assim a Sacola de Negociação de Semi-Equinos (na abreviação SNSE).
Como se isso não bastasse, alguns "investidores" tentavam manipular suas ofertas, seja vigiando a forma como as mulas eram alimentadas, se as mulas exerciam muito esforço de modo a manipular seu peso, ou mesmo, de maneira mais bruta, meramente oferecendo suborno aos donos das mulas para saber qual o peso delas antes da aferição. Uma grosseira tentativa de insider information deu um escândalo no mercado quando Seu Miguel foi tomar café na fazenda de um famoso criador de mula e levou uma fita métrica para medir a barriga do semi-equino. A SNSE ficou abismada com essa interferência no mercado, mas não tinha medidas enérgicas a não ser tirar uma mula ou outra da sacola de negociação.
Ah, isso não podia ficar assim! Medidas enérgicas deveriam ser tomadas. O governo local criou uma entidade com poderes regulatórios que estabeleceriam medidas e regulamentos milimetricamente delimitados. Assim, nasceu a Organização de Pesos Semi-Equinos (vamos chama-la de “OPS”) onde, para uma mula poder participar do mercado de medidas e ingressar na SNSE, antes deveria ser aprovada seu ingresso perante a OPS, devendo ser adotados procedimentos previstos em 12 normas da OPS distintas e ainda com pagamento de taxas periódicas de oferta e fiscalização. Terminantemente proibido a qualquer dono de mula inscrever seu quadrupede de transporte na SNSE sem o prévio aval da OPS, sob pena de graves multas, denúncias públicas de práticas irregulares ao mercado e ainda envio de força tarefa policial na fazenda dos participantes!
Ainda, com as medidas regulatórias, os proprietários das mulas foram obrigados a divulgar semanalmente um relatório de alimentação e atividades dos semi-equinos, descrevendo qual o tipo dos alimentos que foram dados aos animais, quais práticas de exercícios ou trabalhos esses animais estavam sujeitos durante a semana. Os relatórios deveriam ser analisados e aprovados previamente por profissionais previamente habilitados pela OPS que cobravam taxas dos proprietários das mulas. Tais relatórios deveriam estar disponíveis nas portas das fazendas, divulgados no jornal do mercado equestre e ainda feito o upload em nuvem web para ampla divulgação.

Com a nova forma de divulgação de informações, matemáticos e analistas passaram a devorar os dados disponíveis de modo a realizar apostas precisas e com isso acertar definitivamente o peso das mulas no “pregão fazendal” da SNSE. Super computadores foram comprados para auxiliar estes profissionais nas analises os quais, utilizando suas 06 telas de computadores e terminais de broadcast de notícias, vendiam suas análises a terceiros com previsões fantásticas. Não demorou para a OPS criar novas 12 medidas regulatórias prevendo como deveriam ser realizadas as analises de peso das mulas.
Obvio que nesse mercado conflitos iriam acontecer e o que era antes resolvido com socos e pontapés foram utilizados advogados para arbitrar e mitigar conflitos entre os participantes do mercado de mulas. Câmaras arbitrais com diversos árbitros foram instituídas para mediar conflitos. Ainda, os advogados previram que os fazendeiros estavam sem sono com novas medidas da SNSE e da OPS e se habilitavam para auxiliar os fazendeiros a interpretar as normas que cada vez mais pareciam regular um mercado atômico de foguetes. Isso quando os fazendeiros não deviam se defender de condutas irregulares de mercado que mais pareciam uma busca a frenética do mocinho contra o ladrão onde teses e teses são desenvolvidas mas no final são realizados acordos para atender "eficiências dos mercados".
Não podemos nos esquecer das pessoas com grande capital que, além de emprestar dinheiro aos negociadores do mercado, negociavam contra os mesmos negociadores, criando aposta sobre aposta em um exponencial de risco que não poderia ser calculado nem pelos super computadores das 12 telas dos analistas (sim o número de telas já aumentou pois a OPS adotou nova norma regulamentadora sob as telas dos analistas). Ainda, esses mesmos donos do capital, propunham operações estruturadas fora do mercado de negociação dos quadrupedes, onde ofereciam aos fazendeiros financiamentos para atendimento às normas da OPS e investimento na aquisição de novas linhagens de mulas geneticamente adaptadas à nova realidade.
Surpresa para aqueles que tinham grande quantidade de capital. O Centro de Capital do Basilico (vamos chamá-lo de CCB), entendeu que a alocação de riscos que eles estavam realizando não condiziam com as normas CCBs e começou fiscalização minuciosa facilitado por um convenio de troca de informação com a OPS.
Não demorou para que surgisse um grande celeiro financeiro no mercado das mulas. Uma instituição bem relacionada e com trânsito nos salões mais nobres da vila passou a comprar, empacotar e revender certificados lastreados no peso futuro das mulas. Esses papéis prometiam retornos muito acima da média do mercado fazendal, atraindo poupadores, fundos comunitários e até cooperativas de aposentadoria dos trabalhadores rurais.
Os certificados circulavam com facilidade e vendidos por outros celeiros (mediante certa comissão). Eram acompanhados de pareceres, notas técnicas e classificações que atestavam sua adequação ao mercado. As balanças utilizadas para validá-los haviam sido vistas, mais de uma vez, pelos inspetores oficiais da CCB, que tomaram ciência dos métodos empregados e, satisfeitos com a forma, seguiram adiante. Afinal, tudo parecia em ordem: os formulários estavam completos, os selos visíveis, os relatórios atualizados e auditados.
Mas todos nós sabemos como o mercado rural é fofoqueiro e desconfiado. Rumores sobre o novo celeiro sempre ocorreram, dizendo que parte considerável daquelas operações repousava menos sobre o peso efetivo das mulas e mais sobre a confiança reiterada de que alguém, em algum ponto da cadeia, já teria verificado o essencial. Quando a poeira baixou, descobriu-se que o problema não estava apenas na audácia dos operadores, mas na confortável suposição institucional de que ver, anotar e arquivar equivaleria a compreender, questionar e intervir.
Não tardou para a imprensa especializada do mercado de mulas, sempre ávida por protagonismo, eleger o novo celeiro como símbolo máximo de todos os desvios do vilarejo. Manchetes apressadas passaram a condensar anos de práticas difusas em narrativas simples, de fácil consumo, nas quais complexidades estruturais cediam lugar a personagens convenientes. Pouco se falava sobre o funcionamento histórico do mercado, sobre os incentivos que haviam moldado seu crescimento ou sobre as validações sucessivas que sustentaram aquelas operações. O celeiro, afinal, rendia uma história melhor do que o sistema.
Entre colunas inflamadas e análises retrospectivamente certeiras, a cobertura parecia menos interessada em compreender como o mercado fora organizado, e tolerado, ao longo do tempo, e mais empenhada em demonstrar que sempre soubera do desfecho. O escrutínio retrospectivo substituiu a investigação prospectiva; a crítica tardia ocupou o espaço da vigilância contínua. Assim, a imprensa cumpriu seu papel ritual: apontou o dedo, produziu ruído e seguiu adiante, deixando intacta a engrenagem que, silenciosamente, já começava a montar o próximo celeiro.
Em determinado momento, quando os ruídos do mercado já se tornavam difíceis de ignorar, surgiram também os homens da inspeção ostensiva. Chegaram com listas, lacres e discursos firmes, determinados a restaurar a confiança do vilarejo. Vasculharam celeiros, recolheram documentos, interromperam operações e exibiram ao público a imagem de uma resposta rápida e visível.
Ocorre que a intervenção, embora ruidosa, parecia mirar mais os armazéns do que os métodos, mais os papéis acumulados do que as engrenagens que os produziam. As mulas, quando ainda existiam, já estavam exaustas; quando não existiam, continuavam ausentes mesmo após a inspeção. A ação produziu alívio momentâneo e manchetes tranquilizadoras, mas pouco esclareceu sobre como o mercado fora capaz de funcionar por tanto tempo apoiado em suposições frágeis e validações automáticas.
Passado algum tempo, com o mercado da fazenda regulado e protegido, todos sentiram-se seguros de realizar suas negociações e investmentos baseado no mercado equino baseando-se em informações precisas, auditorias realizadas, formulários de dados revistos por advogados, carimbados e chancelados por todos os órgãos reguladores, mas um problema ocorreu:
Onde estão as mulas?
Todos no mercado assustados correram às fazendas. No espanto verificaram que com tanta confusão, normas, taxas, honorários, os fazendeiros acabaram por esquecer de alimentar as mulas.
Pobre dos semi-equinos.
Mas as mulas não morreram em vão. Paralelamente ao mercado de peso de mulas, foi surgindo o mercado de ovos onde as pessoas podiam apostar em quantos ovos cada galinha gerava por um período. Com o trauma do genocídio mulano, aqueles envolvidos que já atuavam também no mercado ovino prometeram fomentar este com normas mais claras, atuação educativa ao mercado e incentivo no ingresso de novos participantes.
Aguardamos para ver como o mercado de ovos irá “chocar” o mundo. *Este é um artigo de ficção. Embora inspirada em eventos e pessoas reais, alguns personagens, nomes, incidentes, locais e diálogos foram alterados ou inventados para fins de dramatização. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, ou eventos reais é mera coincidência.




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