Brasil, uma ideia de futuro


Começo esta breve reflexão com uma memória de infância.
Meu pai sempre gostou muito de ouvir música clássica. Beethoven e Mozart muitas vezes embalavam as manhãs de sábado da minha infância, no sistema de som que ele guardava com enorme carinho e no qual, naturalmente, meu irmão e eu não podíamos tocar.
Um dia, porém, ouvi uma melodia que não me era familiar. Havia algo nela diferente da música que meu pai costumava ouvir. Era, ao mesmo tempo, sofisticada e próxima. Universal e estranhamente familiar. Perguntei o que era.
Era Heitor Villa-Lobos. Meu pai havia colocado para tocar as Bachianas Brasileiras. Voltei a elas enquanto escrevia estas palavras.
Talvez não exista metáfora melhor para a reflexão que proponho. Villa-Lobos tomou Bach, uma das maiores referências da tradição musical europeia, e colocou essa tradição em diálogo com sons, ritmos e sensibilidades brasileiras. Não rejeitou aquilo que vinha de fora. Tampouco simplesmente o reproduziu. Transformou-o.
E fez nascer algo universal porque profundamente brasileiro.
Há um hábito que nós, brasileiros, talvez precisemos abandonar: o de enxergar o nosso país principalmente por aquilo que lhe falta. Falamos de nossas crises políticas, de nossas desigualdades, da violência, da corrupção, das deficiências do Estado, da baixa produtividade e das oportunidades que tantas vezes desperdiçamos. Não faltam razões para a crítica. Negar nossos problemas seria uma forma ingênua de patriotismo.
Mas há outra forma de ingenuidade, talvez igualmente perigosa: imaginar que esses problemas sejam capazes de resumir o Brasil. Não são.
Existe outro Brasil. Um país que criou, construiu, integrou, democratizou, inventou e, em diferentes momentos de sua história, surpreendeu o mundo. Um país capaz de produzir beleza, conhecimento, tecnologia e instituições a partir de uma sociedade excepcionalmente diversa.
Olhar para esse Brasil não significa ignorar aquilo que ainda precisamos corrigir. Significa reconhecer aquilo que já demonstramos ser capazes de fazer.
Talvez esteja justamente aí o começo de um novo projeto de nação.
Um país que nasceu do encontro
Poucas sociedades foram formadas por encontros tão diversos de povos, culturas e tradições quanto a brasileira. Há violência nessa história. Há escravidão, extermínio, autoritarismo, desigualdade e exclusão. Seria desonesto romantizar nossa formação.
Mas seria igualmente incompleto ignorar aquilo que fomos capazes de produzir a partir dela.
Às raízes indígenas, africanas e portuguesas juntaram-se, ao longo do tempo, italianos, japoneses, espanhóis, alemães, libaneses, sírios, judeus e tantos outros povos. Trouxeram suas línguas, culinárias, músicas, religiões, técnicas, costumes e formas de compreender o mundo.
O resultado não foi simplesmente a coexistência dessas culturas. Produzimos algo novo. Existe uma maneira brasileira de incorporar influências, reinterpretá-las e devolvê-las ao mundo transformadas. Isso talvez ajude a explicar por que a cultura brasileira alcançou algumas de suas maiores realizações justamente quando deixou de se perguntar se era suficientemente europeia ou americana e decidiu simplesmente ser brasileira.
Quando o Brasil decidiu ser brasileiro
Talvez um dos momentos mais simbólicos dessa transformação tenha ocorrido há pouco mais de um século, quando uma geração de artistas e intelectuais decidiu enfrentar uma pergunta que nos acompanhava desde a Independência: afinal, o que significava ser moderno e, ao mesmo tempo, brasileiro?
A Semana de Arte Moderna de 1922 representou uma ruptura estética, mas seu significado ultrapassava a arte. Havia ali uma inquietação diante de um país que, durante muito tempo, medira sua sofisticação pela capacidade de reproduzir referências europeias.
O modernismo propunha algo diferente. Não se tratava de rejeitar o mundo. Tratava-se de deixar de se relacionar com ele a partir de uma posição de inferioridade.
Poucos anos depois, a antropofagia transformaria essa intuição em uma das metáforas mais originais da cultura brasileira: devorar simbolicamente as influências externas, digeri-las e transformá-las em alguma coisa nossa. Talvez exista nessa imagem algo que ultrapasse a própria história do modernismo. Porque o Brasil, em muitos de seus melhores momentos, fez exatamente isso.
Recebemos povos, culturas, religiões, ideias, ritmos, técnicas e linguagens vindos de diferentes partes do mundo. Não permanecemos indiferentes a eles, mas tampouco nos limitamos a reproduzi-los. Misturamos. Adaptamos. Reinventamos.
Nossa identidade não nasceu do isolamento. Nasceu da transformação.
Talvez por isso a antropofagia continue sendo uma metáfora tão poderosa para compreender o Brasil. Ser brasileiro nunca significou ser culturalmente puro. Ao contrário, talvez nossa singularidade esteja justamente em nossa extraordinária capacidade de combinar diferenças.
O samba nasceu de encontros. Nossa culinária nasceu de encontros. Nosso vocabulário, nossa religiosidade, nossos costumes e nossa maneira de interpretar o mundo carregam marcas das diferentes civilizações que aqui se encontraram. Foi também desses encontros que surgiram algumas das expressões mais sofisticadas de nossa modernidade.
Décadas depois da Semana de 22, a bossa nova faria algo semelhante. João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e tantos outros dialogaram com o samba, com a tradição musical brasileira e com influências internacionais para produzir uma linguagem que não era mera reprodução de nenhuma delas. Era brasileira. E o mundo a reconheceu justamente por isso.
Na arquitetura, o mesmo impulso ganhou concreto, curvas, jardins e espaço.
Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Burle Marx ajudaram a demonstrar que um país distante dos centros tradicionais de poder também poderia propor sua própria visão de modernidade. Pode-se discutir Brasília, seus problemas urbanísticos e suas contradições. Mas é difícil negar a extraordinária confiança no futuro que sua construção simbolizava.
Lina Bo Bardi, por outro caminho, mostrou como influências estrangeiras poderiam ser absorvidas e convertidas em uma arquitetura intimamente conectada à experiência brasileira.
O mesmo espírito apareceu em diferentes áreas. De Villa-Lobos a Pixinguinha. De Portinari a Guimarães Rosa. De Niemeyer a João Gilberto. De Tarsila a Volpi. Do Cinema Novo à fotografia brasileira. Em seus melhores momentos, o Brasil não se limitou a consumir a modernidade produzida em outros lugares. Criou sua própria modernidade.
Essa trajetória contém uma lição que permanece atual: o Brasil foi mais universal justamente quando teve coragem de ser brasileiro.

Um país que também soube construir
Essa criatividade não ficou restrita às artes.
O Brasil demonstrou ser capaz de realizar projetos de enorme complexidade científica, tecnológica e industrial. Construímos Itaipu. Desenvolvemos uma indústria aeronáutica capaz de competir internacionalmente. Criamos conhecimento para transformar a agricultura tropical em uma de nossas grandes competências econômicas. Desenvolvemos capacidades relevantes em energia, petróleo em águas profundas, biotecnologia, medicina e tecnologia nuclear.
Instituições como Embraer, Embrapa e Petrobras, ao lado de nossas universidades e centros de pesquisa, revelam algo importante sobre a nossa história: quando conhecimento, planejamento, investimento e continuidade institucional se encontram, o Brasil é capaz de realizar projetos que pareciam improváveis.
Nenhuma dessas instituições é perfeita. Nenhuma dessas trajetórias ocorreu sem erros, desperdícios ou controvérsias. Esse não é o ponto.
O ponto é que as grandes realizações brasileiras quase nunca foram obra de uma única pessoa, de um único governo ou de uma única corrente política. Elas são resultado de conhecimento acumulado.
Engenheiros formam engenheiros. Cientistas sucedem cientistas. Instituições acumulam competências. Governos iniciam projetos que outros governos desenvolvem ou concluem.
Há uma lição fundamental nisso: as grandes conquistas nacionais raramente cabem dentro de um mandato presidencial.
A construção da democracia
O mesmo vale para nossas instituições políticas.
O Brasil conheceu diferentes experiências autoritárias. Nossa democracia continua imperfeita. Convivemos com desigualdade perante a lei, descrédito institucional, violência e polarização. Mas também fomos capazes de reconstruir nossa democracia.
A redemocratização brasileira não pertence a uma única corrente política. A mobilização da sociedade civil, as Diretas Já, a transição democrática, a Assembleia Nacional Constituinte e a Constituição de 1988 envolveram pessoas e instituições com concepções muito diferentes de país.
Conservadores, liberais, progressistas, trabalhadores, empresários, juristas, movimentos sociais, universidades, imprensa, organizações religiosas e inúmeras forças da sociedade participaram, com todas as tensões daquele período, da construção da nova ordem democrática.
A Constituição de 1988 não precisa ser considerada perfeita ou imune à crítica para que reconheçamos sua dimensão histórica. A Constituição Cidadã representou uma escolha fundamental: colocar dignidade humana, cidadania, liberdade, direitos sociais e pluralismo no centro de nossa organização política.
Fizemos uma escolha pela democracia. E a democracia possui uma característica que frequentemente esquecemos nos momentos de maior polarização: ela não exige que pensemos da mesma maneira. Exige que aceitemos construir juntos apesar de pensarmos de maneiras diferentes.

Um país que avançou socialmente
Um olhar honesto sobre o Brasil também precisa reconhecer nossos progressos sociais.
Durante séculos, parcela imensa da população brasileira esteve excluída da cidadania, da educação, da saúde e das oportunidades econômicas. Ainda carregamos parte substancial dessa herança. Mas não estamos no mesmo lugar.
A ampliação dos direitos sociais, a conscientização das liberdades individuais, a expansão da educação, a criação e consolidação do SUS, as políticas de vacinação e assistência social, os programas de transferência de renda e a ampliação do acesso ao ensino superior são partes de um longo processo de inclusão de milhões de brasileiros.
As soluções assumiram diferentes formas e foram construídas, alteradas ou ampliadas por governos de diferentes orientações. É assim que países amadurecem.
Não quando cada novo governo precisa demolir aquilo que o anterior realizou, mas quando políticas que funcionam deixam de pertencer aos seus autores e passam a pertencer ao país.
Reconhecer nossos avanços não significa declarar a missão cumprida. Significa algo muito diferente: significa compreender que somos capazes de avançar.
Direita e esquerda passarão pelo poder. O Brasil permanecerá.
Talvez este seja um dos consensos que precisamos reconstruir. O Brasil continuará tendo direita e esquerda. E deve continuar.
Haverá conservadores e progressistas, liberais e desenvolvimentistas. Haverá quem defenda maior presença do Estado e quem queira limitá-la. Divergiremos sobre tributação, segurança pública, política ambiental, costumes, regulação, privatizações, políticas sociais e prioridades orçamentárias. Essas divergências são legítimas.
Uma democracia saudável não é aquela em que as diferenças desaparecem. É aquela em que conseguimos administrá-las sem transformar adversários políticos em inimigos nacionais.
Por isso, talvez o Brasil não precise superar a divisão entre direita e esquerda. Precise superar algo diferente: a ideia de que o país deve começar novamente do zero cada vez que o poder muda de mãos.
Governos deveriam disputar os caminhos sem destruir o destino comum. Podemos discordar sobre como chegar lá, mas algumas ambições deveriam ser compartilhadas.
Queremos um Brasil democrático;
Queremos respeito ao outro, compreendendo a diferença do outro e sabendo conviver em harmonia;
Queremos instituições respeitadas e capazes de respeitar o cidadão;
Queremos segurança e Estado de Direito;
Queremos crianças alfabetizadas e escolas capazes de prepará-las para o século XXI;
Queremos universidades produzindo ciência e conhecimento;
Queremos empresas brasileiras capazes de competir internacionalmente;
Queremos responsabilidade fiscal, porque nenhuma sociedade consegue construir prosperidade duradoura consumindo indefinidamente os recursos das gerações seguintes;
Queremos oportunidades, porque nenhuma nação pode se considerar verdadeiramente próspera enquanto o destino de milhões de pessoas continuar sendo determinado pelas circunstâncias de seu nascimento;
Queremos infraestrutura, energia, inovação e tecnologia;
Queremos preservar nossas riquezas naturais não para transformar o Brasil em um museu, mas para fazer de nossa biodiversidade, de nossa produção de alimentos e de nossa matriz energética vantagens estratégicas de uma nova economia;
E deveríamos querer algo que talvez tenhamos deixado de dizer em voz alta: queremos que o Brasil seja grande.
Voltar a ter ambição
Talvez tenhamos permitido que patriotismo se confundisse com ideologia. Não deveria.
Orgulhar-se do Brasil não significa apoiar um governo. A bandeira brasileira não pertence à direita, assim como a defesa dos mais vulneráveis não pertence à esquerda. Democracia não pertence a um partido. Responsabilidade fiscal não pertence a outro. Direitos humanos, segurança pública, crescimento econômico, proteção ambiental, liberdade, combate à pobreza, ciência e educação não deveriam ser monopólios ideológicos. São partes diferentes de uma mesma ambição nacional.
Precisamos recuperar a capacidade de pensar o Brasil em décadas, e não apenas na próxima eleição. Que infraestrutura queremos construir? Que educação ofereceremos às próximas gerações? Que posição queremos ocupar na economia digital? Que papel desempenharemos na transição energética? Como transformaremos nossa biodiversidade em ciência, desenvolvimento e prosperidade? Como converteremos nossos recursos naturais em conhecimento e riqueza? Que universidades, empresas, Forças Armadas, agências reguladoras e instituições científicas serão necessárias para o mundo que está surgindo?
E, sobretudo: que sociedade queremos ser?
Talvez aqui a antropofagia volte a nos oferecer uma imagem útil, agora para além da cultura. O Brasil do século XXI não precisa simplesmente escolher qual modelo estrangeiro deseja copiar. Podemos aprender com os Estados Unidos, com a Europa, com a Ásia e com outras experiências de desenvolvimento, incorporando aquilo que funciona e compreendendo aquilo que fracassou.
Mas precisaremos encontrar nossas próprias respostas. O desafio continua sendo, de certa maneira, antropofágico: absorver o mundo sem desaparecer dentro dele. Não se trata de nos fechar. Trata-se exatamente do contrário: entrar no mundo com confiança suficiente para aprender com todos e, ao mesmo tempo, ter algo próprio a oferecer.
Uma identidade brasileira para o século XXI
Talvez nossa maior força esteja exatamente naquilo que muitas vezes consideramos nossa contradição.
Somos diferentes. Somos um país continental e profundamente regional. Amazônia e Pampas. Sertão e litoral. São Paulo e Salvador. Recife e Manaus. Rio de Janeiro e Brasília. Grandes metrópoles e milhares de pequenas cidades. Somos descendentes de indígenas, africanos, europeus, asiáticos e povos do Oriente Médio. Somos católicos, evangélicos, judeus, espíritas, umbandistas, muçulmanos, seguidores de outras religiões e também pessoas sem religião. Somos conservadores e progressistas. E somos brasileiros.
Essa identidade comum não exige que abandonemos nossas diferenças.
Talvez o Brasil possa oferecer ao século XXI exatamente uma ideia que parece cada vez mais necessária em um mundo fragmentado: é possível construir identidade sem exigir uniformidade. Respeitar quem pensa diferente não diminui nossas convicções. Respeitar quem veio de outro lugar não enfraquece nossa identidade. Reconhecer nossos erros históricos não exige desprezar nossa história.
Uma nação madura precisa ser capaz de fazer as duas coisas simultaneamente: orgulhar-se de suas conquistas e enfrentar seus fracassos.
Do eu ao nós
Mas talvez exista hoje uma dificuldade adicional.
Vivemos uma época marcada por uma aparente contradição: de um lado, a exacerbação do indivíduo; de outro, uma necessidade cada vez maior de pertencimento a grupos que confirmem nossas próprias convicções. Nunca foi tão fácil falar. Talvez nunca tenha sido tão difícil escutar.
Em muitos momentos, não basta mais discordarmos de alguém. Precisamos demonstrar que estamos certos e que o outro está errado. Não basta defender uma causa. Parece necessário provar que aqueles que não a defendem exatamente da mesma maneira são moralmente inferiores.
O debate deixa então de ser uma busca por soluções e se transforma em uma disputa por identidade. A complexidade perde espaço. A dúvida passa a ser interpretada como fraqueza. A disposição de mudar de opinião parece incoerência. E ouvir o outro passa a ser confundido com concordar com ele.
Mas uma sociedade plural não sobrevive assim.
Há princípios dos quais não devemos abrir mão: o respeito à vida e à dignidade humana, a liberdade, o direito de ir e vir, a igualdade perante a lei, a possibilidade de fazer escolhas individuais desde que respeitados os direitos dos demais.
Fora desses fundamentos essenciais de convivência, precisamos recuperar alguma humildade diante da complexidade. Nenhum de nós possui sozinho todas as respostas. E nenhum projeto de nação será possível se cada brasileiro imaginar que o país só poderá ser construído depois que o outro for derrotado.
Talvez um dos maiores desafios de nosso tempo seja justamente reconstruir o sentido do “nós”. Não um “nós” que elimine o indivíduo. Um “nós” que permita ao indivíduo compreender que liberdade também exige convivência, que direitos pressupõem responsabilidades e que uma sociedade não é apenas a soma de interesses particulares.
Um país é, afinal, um dos mais ambiciosos projetos coletivos que seres humanos podem construir.

O país que entregaremos
O Brasil não pertence à direita nem à esquerda.
Não pertence a um presidente, a um partido, a uma geração ou a uma corrente de pensamento.
Nós o recebemos daqueles que vieram antes e, durante um período extraordinariamente breve da história, teremos responsabilidade sobre ele. Depois, o entregaremos.
Essa talvez seja uma maneira diferente de compreender a ideia de nação. Uma nação não é formada por pessoas que pensam da mesma maneira. É formada por pessoas diferentes que reconhecem que existe algo maior do que suas diferenças.
Construímos cidades onde antes havia cerrado. Fizemos música que o mundo aprendeu a ouvir. Criamos uma arquitetura que passou a integrar o imaginário internacional. Desenvolvemos conhecimento e tecnologia em áreas nas quais poucos imaginariam que um país tropical pudesse ocupar posição de destaque. Construímos instituições, ampliamos direitos e reconstruímos nossa democracia depois de períodos autoritários.
Fizemos tudo isso sendo brasileiros. Contraditórios. Diversos. Imperfeitos. E extraordinariamente criativos.
Ainda temos uma enorme dívida conosco mesmos.
Há crianças sem educação adequada. Famílias sem saneamento. Brasileiros vivendo com medo da violência. Desigualdades que continuam determinando destinos. Um Estado que tantas vezes custa mais do que entrega. Enfrentar essas realidades também é uma forma de patriotismo.
Porque amar o Brasil não é dizer que o Brasil está pronto. É recusar a ideia de que ele não possa ficar melhor.
Nosso maior desafio talvez não seja inventar um novo país. Talvez seja reconhecer o país que já fomos capazes de construir e recuperar a confiança necessária para continuar essa obra.
Haverá governos de direita. Haverá governos de esquerda. Haverá eleições, alternância de poder, crises, erros, acertos e retrocessos. Isso faz parte de uma democracia viva. Mas certas coisas precisam sobreviver a tudo isso.
A democracia. A dignidade humana. As liberdades individuais. A educação. A ciência. O Estado de Direito. A responsabilidade com as próximas gerações. Instituições sólidas. O desenvolvimento econômico. A redução das desigualdades. E a ambição de fazer do Brasil um país cada vez mais próspero, livre, justo e relevante.
Enquanto termino estas palavras, volto às Bachianas Brasileiras que meu pai me apresentou tantos anos atrás.
Talvez Villa-Lobos tenha compreendido antes de muitos de nós uma parte do que significa ser brasileiro: não precisamos escolher entre aquilo que recebemos do mundo e aquilo que somos. Podemos transformar um no outro e criar alguma coisa nova.
Talvez o mesmo valha para nosso futuro.
Não precisamos concordar sobre tudo para construir juntos. Precisamos apenas voltar a acreditar que existe um projeto maior do que cada um de nós.
Governos passam.
Ideologias mudam.
Gerações se sucedem.
O Brasil fica.

Esta é uma reflexão de caráter pessoal e não representa a posição institucional do escritório. Decidi compartilhá-la porque acredito que o momento que vivemos nos convida a ir além do debate sobre nossos problemas: é preciso também refletir sobre aquilo que nos une, sobre nossas ambições comuns e, sobretudo, sobre o Brasil que queremos construir e entregar às próximas gerações.




ENCANTOU-ME ESSE TRABALHO. É TUDO O QUE O BRASILEIRO PRECISA CONSUMIR: CULTURA DE BOA FONTE.
QUE MARAVILHOSO ARTIGO. ENCANTOU-ME E AGRADEÇO PELA PRODUÇÃO DE ALTO NÍVEL.