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Do sistema financeiro tradicional aos ecossistemas digitais

  • Foto do escritor: Thomas Gibello Gatti Magalhães
    Thomas Gibello Gatti Magalhães
  • 28 de mai.
  • 4 min de leitura


um novo conceito de regulação financeira e concorrencia
um novo conceito de regulação financeira e concorrencia

A redefinição do objeto regulatório no Brasil



A regulação do sistema financeiro brasileiro atravessa, atualmente, um processo de transformação estrutural que desafia as categorias tradicionais do direito econômico e regulatório. Historicamente centrada na supervisão de instituições financeiras e na disciplina de atividades específicas (crédito, depósitos, pagamentos), a atuação estatal passa a incidir, de forma crescente, sobre estruturas complexas e integradas, caracterizadas como verdadeiros ecossistemas digitais financeiros.


Esse deslocamento não decorre de uma opção normativa isolada, mas de um conjunto de fatores convergentes: (i) o avanço tecnológico; (ii) a fragmentação e desintermediação das cadeias de valor; (iii) o surgimento de plataformas digitais com atuação multifuncional; e (iv) a atuação proativa do Banco Central na implementação de infraestruturas abertas, como o Pix e o Open Finance.


Nesse novo cenário, torna-se insuficiente a análise jurídica fundada na figura da instituição individual. O objeto da regulação passa a ser o arranjo sistêmico de interações econômicas e tecnológicas, exigindo uma reconfiguração dos instrumentos regulatórios e concorrenciais disponíveis.


A superação do modelo institucional clássico


O paradigma tradicional da regulação financeira foi estruturado sobre a ideia de que agentes distintos desempenham funções claramente delimitadas. A cada função corresponderia um regime jurídico específico, orientado à mitigação de riscos prudenciais e à proteção do consumidor.


Tal modelo pressupunha: (a) relativa estabilidade institucional; (b) centralização das atividades financeiras; e (d) previsibilidade das relações econômicas. Esse contexto foi progressivamente superado.


A partir da introdução de novos arranjos de pagamento e da ampliação do escopo de atuação de instituições não bancárias, observa-se uma crescente desagregação funcional. A prestação de um único serviço financeiro pode envolver múltiplos agentes, distribuídos ao longo de camadas tecnológicas e operacionais distintas.


Nesse ambiente, a regulação orientada exclusivamente ao sujeito (instituição financeira) revela-se insuficiente, uma vez que os riscos — e, sobretudo, o poder econômico — passam a emergir das relações entre os agentes, e não apenas de sua atuação individual.


A transformação do setor de pagamentos constitui elemento central para a compreensão do novo paradigma regulatório.


Tradicionalmente este é concebido como etapa acessória da transação econômica, o pagamento assume, no atual contexto, papel estruturante. A sua integração com plataformas digitais possibilita que esse instrumento opere como: (a) mecanismo de aquisição de usuários; (b) vetor de coleta e tratamento de dados; (c) meio de expansão de serviços financeiros e não financeiros; e (e) elemento de organização de mercados dentro de ecossistemas digitais.


Nesse contexto, o agente que controla a infraestrutura de pagamentos passa a deter posição estratégica na dinâmica, influenciando não apenas preços e custos, mas também o acesso ao mercado e a distribuição de valor entre os participantes.


Essa realidade impõe uma releitura da regulação financeira, aproximando-a de temas tradicionalmente associados ao direito antitruste, notadamente aqueles relacionados a efeitos de rede e concentração em mercados digitais.


Interoperabilidade como instrumento de política regulatória e concorrencial


Diante da crescente complexidade dos ecossistemas digitais, a regulação passa a incorporar mecanismos voltados à preservação da abertura dos mercados. Nesse contexto, destaca-se o papel da interoperabilidade.

Mais do que uma exigência técnica, a interoperabilidade constitui um instrumento normativo voltado a: (a) reduzir barreiras à entrada; (b) mitigar efeitos de lock-in; (c) assegurar mobilidade de usuários e dados; e (e) limitar o exercício abusivo de poder de mercado.


A implementação de infraestruturas abertas no Brasil — especialmente o Pix e o Open Finance — exemplifica essa abordagem, ao estabelecer padrões que permitem a interação entre diferentes agentes em bases competitivas.


Nesse sentido, observa-se uma transição do modelo regulatório tradicional (reativo e ex post) para um modelo estrutural e preventivo, no qual a regulação opera sobre a arquitetura do mercado, moldando desde sua origem as condições de funcionamento concorrencial.


A convergência entre regulação e concorrência


A evolução observada desafia a concepção clássica de antagonismo entre regulação setorial e defesa da concorrência. No ambiente digital, essas dimensões assumem caráter complementar.


A atuação coordenada entre Banco Central e autoridades concorrenciais evidencia que a regulação pode ser instrumento de promoção da concorrência, onde a concorrência depende de condições estruturais asseguradas pela regulação e a ausência de coordenação pode gerar lacunas e assimetrias regulatórias.


O caso brasileiro destaca-se, nesse particular, pela construção de um arranjo institucional que privilegia o diálogo entre autoridades, evitando sobreposição de competências e promovendo maior segurança jurídica.


Todavia, o surgimento de ecossistemas digitais complexos impõe desafios adicionais, especialmente no que se refere à delimitação de competências e à definição de instrumentos adequados para lidar com estruturas de mercado em constante mutação.


Novos desafios: dados, segurança e governança de ecossistemas


A transição para um modelo baseado em infraestruturas digitais traz consigo desafios relevantes, que demandam respostas regulatórias igualmente inovadoras.


  • Centralidade dos dados


Dados passam a constituir ativo essencial para a competição, tornando-se necessário garantir sua portabilidade e acesso em condições equitativas.


  • Segurança cibernética e integridade do sistema


A intensificação da digitalização amplia a exposição a riscos operacionais e cibernéticos, exigindo maior sofisticação na supervisão.


  • Governança privada de ecossistemas


Plataformas digitais passam a exercer funções normativas internas, definindo regras de acesso e participação, o que pode afetar significativamente a concorrência.


  • Complexidade regulatória


A necessidade de coordenação entre múltiplos agentes e autoridades exige modelos regulatórios mais flexíveis e dinâmicos.


Esses fatores indicam que a regulação financeira contemporânea deve operar com base em:


  • análise sistêmica;

  • monitoramento contínuo;

  • integração institucional;

  • adaptação incremental.


Conclusão


A evolução do sistema financeiro brasileiro evidencia uma mudança paradigmática: a regulação deixa de se concentrar nas instituições e passa a incidir sobre as estruturas que organizam o funcionamento do mercado.


Esse movimento redefine o papel do Estado, que atua não apenas como regulador, mas como arquitetura institucional do sistema financeiro, responsável por estabelecer as bases sobre as quais a concorrência e a inovação se desenvolvem.


O desafio contemporâneo consiste em preservar o equilíbrio entre:


inovação tecnológica;

estabilidade do sistema;

eficiência econômica;

abertura concorrencial.


A experiência brasileira demonstra que esse equilíbrio é possível, mas sua manutenção dependerá da capacidade das instituições de adaptar seus instrumentos à lógica dos ecossistemas digitais, que constituem, hoje, o verdadeiro núcleo da atividade econômica.


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